Acusado de homicídio de Fernando Iggnácio fez viagem de helicóptero para 'reconhecimento' antes do crime, diz delegado
16/07/2026
(Foto: Reprodução) Justiça inicia júri de irmãos acusados pelo homicídio do bicheiro Fernando Iggnácio
No depoimento realizado no júri popular contra acusados de matar o bicheiro Fernando Iggnácio, em 2020, o delegado Moysés Santana afirmou que Pedro Emanuel D'onofre Cordeiro fez um voo de helicóptero para "reconhecimento" do local 3 dias antes do homicídio.
O júri começou por volta das 12h, no 1º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. Os irmãos Pedro Emanuel D'onofre Andrade e Otto Samuel D'onofre Andrade respondem por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de meio cruel e uso de emboscada e meios que impossibilitaram a defesa da vítima) (entenda quais são as provas contra eles mais abaixo).
O bicheiro foi morto no dia 10 de novembro de 2020, quando chegava em seu veículo, um Ranger preto, no estacionamento da empresa Heli-Rio, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio.
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Segundo as investigações, Pedro esteve na mesma empresa e realizou um voo panorâmico acompanhado de uma mulher no dia 7 de novembro.
Pedro Emanuel D'onofre Cordeiro em helicóptero da Heli-Rio; foto foi tirada 3 dias antes da morte de Fernando Iggnácio
Reprodução
A rota era exatamente a mesma da que foi realizada por Fernando Iggnácio três dias depois: de Ilha Grande, onde tinha uma casa de veraneio, até o Rio de Janeiro.
"Me recordo do Pedro ter ido fazer esse reconhecimento antes", disse o delegado Moysés Santana, titular da Delegacia de Homicídios na época do crime. Ele foi a primeira testemunha ouvida no júri popular.
Durante o processo, o coordenador de voo da Heli-Rio e uma atendente afirmaram em depoimentos À Justiça que Pedro e Ygor Rodrigues, o Farofa, estiveram no local, e que Pedro pagou a viagem panorâmica em dinheiro, no valor entre R$ 1,3 mil e R$ 1,5 mil.
Um dos depoimentos diz que Pedro passou pelo estacionamento onde o carro de Fernando Iggnácio já estava estacionado, aguardando seu retorno, que ocorreu no dia 10 de novembro.
Nas contas de nuvem digital de Pedro, a Polícia Civil encontrou imagens do voo e confirmou que uma dessas fotos estava com a data do dia 7 de novembro de 2020.
O coordenador de voo da Heli-Rio, André Ribeiro Guerra, também confirmou que Pedro esteve na Heli-Rio e fez o voo panorâmico naquele dia.
No primeiro dia de júri, foram ouvidas as seguintes testemunhas:
Moyses Santana, delegado titular da DH da Capital na época do crime
Luciano Konig, policial civil que fez relatório sobre dados telemáticos para o Gaeco
André Ribeiro Guerra, coordenador de voo da Heli-Rio
Jorge ALexandre Ferreira, zelador do prédio de Rodrigo
Eduardo Amâncio, instalador de câmeras da Heli-Rio
Maria Laura Almeida Barbosa, perita que fez a perícia das armas usadas no crime
Foram também reproduzidos em vídeo, os depoimentos de Diego Tichetti, piloto do helicóptero que costumava levar Fernando Iggnácio; e de Vanessa Mouzo, administradora da empresa Heli-Rio, que alugou a aeronave para o bicheiro.
Eles foram ouvidos em outros processos sobre o caso e o juiz Thiago Portes determinou que os vídeos fossem exibidos aos jurados.
Crime foi planejado meses antes, diz policial
O policial civil Luciano Konig, responsável por dois relatórios de análise dos dados dos celulares de Pedro e Otto, afirmou que o planejamento do crime foi bastante longo:
"Possivelmente desde janeiro daquele ano eles estavam fazendo atos preparatórios para aquele homicídio. Há imagens do fardamento utilizado no crime desde janeiro daquele ano", explicou Konig.
O policial afirmou ainda que os dados revelaram que Pedro e Otto participaram de um encontro dias após o homicídio, e que possivelmente havia uma preocupação se o crime fora filmado por alguma câmera de segurança.
"Talvez eles estivessem preocupados com relação às imagens, de câmeras. Eles passam filmando, vendo se alguma câmera pode ter visualizado eles", disse o policial.
Sete dias de análise de imagens
Fernando Iggnácio, genro do contraventor Castor de Andrade, foi executado dentro de heliporto na Zona Oeste do Rio
Luciano Belford/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
O delegado também deu detalhes sobre o início da investigação que levou às prisões de Pedro e Otto, além de Rodrigo Silva das Neves, condenado em abril pelo crime, e Ygor Rodrigues, o Ygor Farofa, que morreu em 2022 durante um confronto de criminosos no Recreio dos Bandeirantes.
Segundo ele, foi feito um trabalho ininterrupto de sete dias para obter imagens que levassem ao veículo utilizado no crime e seus ocupantes.
"Foram quase 45 quilômetros de deslocamento do veículo captando imagens de câmeras que, no sétimo dia, nos permitiu chegar ao destino final dos autores, em um condomínio em Campo Grande, onde os autores desembarcam do veículo, logo após o crime, e deixam o prédio", explicou o delegado.
Rodrigo Silva das Neves, que era PM na época do crime, foi o primeiro identificado pela DH da Capital e preso na Bahia, em janeiro de 2020.
Depois, segundo Moyses, a polícia chegou às identidades de Pedro, Otto e Ygor e o chefe de segurança de Rogério Andrade, Márcio Araújo, que responde pelo crime em outro processo.
Júri desmembrado
O julgamento dos irmãos Pedro e Otto foi desmembrado. Inicialmente, eles seriam julgados junto com Rodrigo Silva das Neves, ex-policial militar condenado a 32 anos, 9 meses e 18 dias de prisão pelo crime em abril deste ano.
Suspeitos da morte do bicheiro Fernando Iggnácio deixam prédio horas após o crime
A defesa dos irmãos passou por mudanças durante o processo. Pedro Emanuel D'onofre Andrade e Otto Samuel D'onofre Andrade destituíram o advogado Flavio Fernandes após um entendimento de que a atuação conjunta na defesa dos dois réus poderia causar problemas no andamento da ação. Posteriormente, o advogado foi reintegrado ao caso.
O advogado também pediu a abertura de um incidente de insanidade mental para Pedro, mas a solicitação foi negada pela Justiça.
Pedro Emanuel D'onofre Cordeiro, preso no Paraná em janeiro de 2025
Reprodução
Otto Samuel, ex-PM de São Paulo, também preso por participação no crime
Reprodução
O bicheiro Rogério Andrade, rival de Fernando Iggnácio, foi preso em outubro de 2024 acusado de ser o mandante do crime.
Rogério Andrade, sobrinho de Castor, foi preso por ser suspeito de mandar matar o rival Fernando Iggnácio (de óculos), genro de Castor
Reprodução TV Globo
Ex-PM condenado
Rodrigo Silva das Neves, ex-PM preso desde 2021 acusado de envolvimento no assassinato do bicheiro Fernando Iggnácio em 2020, foi condenado por homicídio triplamente qualificado
Henrique Coelho/g1
Em abril, o ex-PM Rodrigo Silva das Neves foi condenado a 32 anos, 9 meses e 18 dias de prisão.
Segundo a acusação, o ex-PM estava no local do homicídio, cedeu o veículo utilizado para o assassinato e, em seu apartamento, foram achadas as armas do crime.
Em um diário encontrado por investigadores, ele lamentou o dia em que as armas foram achadas.
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Quais são as provas, segundo o MP
Contraventor Rogério Andrade é preso por mandar matar rival Fernando Iggnácio
A participação de Pedro Emanuel e Otto Samuel no crime, segundo o Ministério Público, foi confirmada a partir de imagens de câmeras de segurança e também dados telefônicos e telemáticos (de localização).
Pedro Emanuel, de acordo com a acusação, fez um voo de helicóptero no dia 7 de novembro para calcular o exato trajeto de Fernando Iggnácio de helicóptero até o Rio. O contraventor tinha uma casa de verão na Ponta da Raposinha, em Ilha Grande, na Costa Verde do estado.
Além disso, segundo o MP, ele também calculou o tempo exato para que a vítima saísse do helicóptero, pegasse o carrinho de golfe da empresa Heli-Rio e chegasse ao seu carro. No celular de Pedro, estavam armazenadas imagens desse voo de reconhecimento, de acordo com as investigações.
Já Otto apresentou um atestado falso na Polícia Militar de São Paulo para estar no Rio na época em que o crime aconteceu.
Além disso, segundo as investigações da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), a antena de seu telefone coincidia com a localização exata do carro Fox utilizado no crime e na fuga para Campo Grande.
Relembre o crime
Contraventor Fernando Iggnácio é executado no Recreio
Iggnácio, genro e herdeiro do contraventor Castor de Andrade, foi executado em 10 de novembro de 2020 em uma emboscada no Recreio dos Bandeirantes.
Ele tinha acabado de desembarcar de um helicóptero, vindo de Angra dos Reis, na Costa Verde, e foi alvejado ao caminhar até o carro. Os tiros foram de fuzis calibre 7.62.
Os criminosos esperaram por cerca de 4 horas até a chegada de Fernando Iggnácio ao seu veículo, antes de realizarem os disparos.
Quatro pessoas estavam escondidas em uma área de mato alto, utilizando roupas camufladas típicas de forças especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Segundo as investigações, a morte de Iggnácio foi encomendada por Rogério Andrade, sobrinho de Castor de Andrade e apontado como o maior bicheiro do Rio.
29 de outubro - Rogério Andrade, o maior bicheiro do Rio, é preso por mandar matar o rival, Fernando Iggnácio, executado em novembro de 2020.
JOSE LUCENA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO
Rogério foi preso em outubro de 2024 e transferido em novembro para o Presídio Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.
Mesmo após pedidos de sua defesa, o STF negou a liberdade de Andrade, que segue preso e responde a um processo separado, onde chegou a acompanhar por videoconferência uma das audiências.